Seguindo uma ordem contínua de publicações que visam dar padrão à gestão da sustentabilidade e ESG, a ABNT (Associação brasileira de normas técnicas), publicou recentemente a ABNT NBR 20.250 (Diretrizes gerais de sustentabilidade para produtos e serviços) direcionando mais um esforço de estruturar critérios mais claros para avaliar a sustentabilidade de produtos e serviços no Brasil.
A norma, que diferente da ABNT PR2030 que era apenas uma prática recomendada, foi desenvolvida com intuito de ser um instrumento de suporte ao Selo Verde Brasil, instituído pelo Decreto 12.063/2024, na busca de estabelecer diretrizes que permitam às organizações identificar, avaliar e melhorar os impactos associados às suas soluções ao longo do tempo, mantendo um processo de gestão em melhoria contínua.
O foco principal do documento está na tentativa de organizar um processo estruturado para que as empresas compreendam, de forma mais sistemática, os impactos de sustentabilidade relacionados ao que produzem ou entregam. Isso envolve desde a análise de aspectos e impactos da sustentabilidade até a definição de objetivos, a implementação de ações e o monitoramento contínuo da eficácia dessas iniciativas. É basicamente uma lógica que se aproxima daquilo que já é observado em sistemas de gestão normatizados (qualidade, meio ambiente, saúde e segurança), mas com o foco direcionado especificamente ao desempenho de produtos e serviços do ponto de vista de sustentabilidade (ambiental, social e econômica).
Com esse direcionamento, a norma também prioriza trazer o entendimento de que nenhum produto ou serviço existe isoladamente dentro dos limites físicos da organização que produz, já que cada solução carrega uma cadeia de impactos que começa muito antes da sua fabricação e continua até o fim da sua vida útil. Ao trazer a importância da análise do ciclo de vida dos produtos e serviços, a norma acerta, já que amplia a visão geral das soluções e estimula uma visão mais completa sobre responsabilidade e consequência.
Esse é um avanço relevante conceitualmente falando, especialmente em um contexto onde ainda é comum que organizações concentrem seus esforços só naquilo que está sob seu controle direto, deixando de lado efeitos indiretos que podem representar riscos materiais ao negócio.
Outro aspecto positivo está no reconhecimento de temas econômicos como parte integrante da sustentabilidade, ainda que tratados de forma relativamente independente, a simples inclusão desses fatores na análise, por si só, já contribui para reforçar que sustentabilidade não existe se estiver dissociada da viabilidade financeira. Nenhuma solução é sustentável se compromete a continuidade da organização que a produz, assim como nenhuma organização permanece competitiva sem analisar e minimizar os impactos que gera.
A norma também adota uma abordagem relativamente sintética, o que facilita sua leitura e compreensão, especialmente por empresas que ainda estão em estágios iniciais de maturidade. Esse caráter mais direto evita que o documento se torne muito abstrato ou distante da realidade operacional, o que frequentemente reduz a aplicabilidade prática, como nos frameworks mais complexos que vemos no mercado.
No entanto, como ocorre com grande parte das estruturas normativas voltadas à sustentabilidade, a utilidade da ABNT NBR 20.250 dependerá menos do que está escrito e muito mais de como será interpretada e aplicada pelas organizações.
Um dos pontos que merece reflexão está na forma como a norma organiza os temas em pilares ambientais, sociais e econômicos, com listas de assuntos previamente definidos. Essa estrutura tem o mérito de orientar empresas que ainda não possuem familiaridade com o assunto, mas também pode induzir a uma abordagem baseada em verificação de itens, em vez de uma análise estratégica. Quando a sustentabilidade passa a ser conduzida como um conjunto de tópicos a serem atendidos, existe o risco de perder sua conexão com a gestão real do negócio e com seus riscos mais relevantes, virando mais um checklist de atende ou não atende.
A sustentabilidade eficaz não se desenvolve através da conformidade com listas de requisitos gerais, mas da compreensão profunda sobre como o modelo de negócio interage com o ambiente econômico, social e regulatório em que está inserido. Cada empresa possui uma dinâmica específica de impactos e dependências, e é essa singularidade que deve orientar suas prioridades de sustentabilidade, e não estruturas genéricas preestabelecidas.
Outro ponto que exige maturidade interpretativa está na relação entre sustentabilidade e resultado econômico. Por mais que a norma traga claramente a importância do desempenho financeiro, a separação entre os pilares pode fomentar uma percepção equivocada de que existem escolhas a serem feitas entre desempenho econômico e responsabilidade socioambiental, ou de que tais questões acontecem em paralelo. Essa separação não reflete a realidade, já que impactos ambientais e sociais mal gerenciados inevitavelmente se convertem em riscos financeiros, seja por meio de sanções regulatórias, perda de mercado, aumento de custos operacionais ou deterioração da reputação.
Na norma, o foco na melhoria contínua é particularmente relevante, principalmente por trazer que sustentabilidade não é um estado final, mas um processo dinâmico de adaptação e evolução contínua para manutenção da perenidade do negócio. O ambiente regulatório muda, as expectativas dos clientes evoluem, as tecnologias se atualizam e os riscos se transformam e as organizações que estruturam mecanismos para revisar criticamente suas atividades de forma periódica, desenvolvem maior capacidade de antecipação e resposta.
Outro ponto que vale a pena destacar da norma é o incentivo à consideração de fornecedores e cadeias produtivas, já que esse ponto está baseado em uma tendência global de ampliar a responsabilidade organizacional em toda a cadeia de valor. Ao mesmo tempo, esse talvez seja um dos temas que deveria contar com mais aprofundamento pela sua complexidade, já que o desenvolvimento de cadeias produtivas mais maduras é um processo gradual que depende de alinhamento econômico, capacidade técnica e incentivos adequados e só a expectativa de alinhamento não é suficiente para que ele aconteça e isso pode levar empresas a apenas “dizer que cumpriu” com os requisitos, sem de fato analisar o tema a fundo, sendo que ele é um dos que representa os maiores riscos na sustentabilidade dos negócios.
Com esse contexto, entendo que a ABNT NBR 20.250 deve ser analisada como uma estrutura orientadora, e não como uma solução ou como um método de comprovação de conformidade.
Sua principal contribuição está em organizar conceitos e reforçar a necessidade de método, análise e monitoramento, o que para empresas em estágios iniciais, pode representar um ponto de partida bem relevante. Para organizações mais maduras, seu valor é menor nas diretrizes em si e maior na forma como essas diretrizes serão integradas à estratégia e à governança existente. Eu diria até que o verdadeiro desafio não está em conhecer o que deve ser feito (maior ponto de esforço das organizações atualmente), mas em transformar esse conhecimento em decisões consistentes, priorização adequada e execução disciplinada. As normas podem até orientar, mas não substituem a responsabilidade gerencial de compreender profundamente o próprio negócio e saber quais riscos devem ser tratados em que prioridade.
A existência de uma nova norma não resolve, por si só, a lacuna entre intenção e prática, que só é reduzida quando sustentabilidade deixa de ser um conjunto de iniciativas isoladas e focadas em marketing apenas e passa a ser incorporada como parte inseparável da gestão de riscos, da estratégia e da tomada de decisão nas empresas.
Nesse sentido, a ABNT NBR 20.250 tem uma missão importante, ao focar na necessidade de estrutura e método, mas seu impacto dependerá da capacidade das organizações de utilizá-la não como um roteiro de conformidade (que já vimos em várias situações serem ineficazes), mas como um instrumento de reflexão e fortalecimento da gestão.
Quando aplicada dessa forma, ao invés de ser só mais uma norma, ela se torna uma ferramenta para melhorar a qualidade das decisões e a resiliência dos negócios no médio e longo prazo, aquilo que se espera da sustentabilidade corporativa de fato.
