Luiz Goi – Diretor técnico ECOVALOR
Quando falamos de relatório de sustentabilidade, imediatamente estamos nas entrelinhas tratando de posicionamento estratégico, gestão de risco e sobretudo, de credibilidade. O relatório de sustentabilidade que fora no passado avalizado como um documento institucional, se transformou em uma ferramenta de organização interna, priorização de temas materiais e diálogo estruturado com o mercado. Segundo pesquisas da KPMG, 71% das empresas no mundo já adotam o modelo da Global Reporting Initiative (GRI), percentual que cresce de forma ainda mais relevante quando analisamos as grandes corporações. Isso mostra que não se trata de um período de modismo sustentável, mas de uma consolidação metodológica que criou uma base sobre a forma como a agenda de sustentabilidade passou a ser comunicada e, principalmente, gerida pelas empresas.
Para o gestor de sustentabilidade que precisa engajar áreas internas, justificar orçamento e dialogar com conselhos cada vez mais ansiosos por analisar riscos reputacionais e financeiros, o padrão GRI continua sendo um ponto de partida relevante e a razão é simples: ele organiza a maior dor, excesso de iniciativas isoladas e sem um direcionamento de priorização. Em empresas onde a agenda ainda é pulverizada entre meio ambiente, responsabilidade social, compliance e operações, a estrutura da GRI funciona como um tipo de guia, já que ela obriga a companhia a definir seu perfil, seus impactos, sua governança e seus indicadores de desempenho de forma padronizada, criando uma linguagem comum entre áreas que historicamente não conversam.
É exatamente essa padronização, somada a sua forma de comunicar amigável que explica a sua permanência como lastro do reporte. Quando uma empresa adota a GRI, ela passa a se comparar com seus pares, a identificar lacunas e a acompanhar a própria evolução com base em métricas reconhecidas globalmente. Isso reduz retrabalho, evita a criação de indicadores desconectados e diminui custos operacionais associados à coleta desorganizada de dados. A uniformização de critérios também reduz o risco de inconsistências que podem comprometer a credibilidade do relatório de sustentabilidade diante de investidores, clientes e auditorias independentes.
No entanto, defender a relevância da GRI não significa priorizá-lo ante o novo cenário regulatório. O avanço das normas da IFRS Foundation, especialmente a International Sustainability Standards Board com as IFRS S1 e S2, trouxe uma camada adicional de rigor ao conectar sustentabilidade diretamente à materialidade financeira. A IFRS S1 estabelece requisitos gerais de divulgação de informações relacionadas à sustentabilidade com foco em riscos e oportunidades que afetam o valor da empresa, enquanto a IFRS S2 aprofunda o recorte climático com métricas e governança específicas. Para empresas de capital aberto, especialmente aquelas inseridas em mercados mais exigentes, não se atentar a essa evolução é assumir um risco estratégico e se desconectar da verdadeira sustentabilidade.
Na Europa, o cenário se tornou ainda mais estruturado com o European Sustainability Reporting Standards, obrigatório para determinadas empresas no contexto da CSRD, e com o VSME, modelo voluntário direcionado a pequenas e médias empresas. O ESRS amplia o conceito de dupla materialidade, exigindo que a empresa reporte tanto os impactos que sofre quanto aqueles que causa, reforçando a necessidade de integração entre estratégia, risco e impacto. Já o VSME surgiu como alternativa simplificada, mas alinhada ao mesmo espírito regulatório europeu.
Diante desse ambiente, surge aquela dúvida: se há IFRS, ESRS e outros padrões emergentes, a GRI ainda faz sentido? A resposta estratégica é sim, desde que entendida como base e não como fim. A GRI continua sendo o padrão mais difundido globalmente, com maior capilaridade setorial e maior familiaridade entre stakeholders diversos. Ela estrutura o relato de impactos ambientais, sociais e de governança de maneira abrangente, enquanto IFRS S1 e S2 aprofundam o olhar financeiro e o ESRS impõe requisitos regulatórios específicos.
Focado em conformidade, é possível afirmar que a GRI continua sendo o lastro do reporte porque organiza o conteúdo, facilita auditorias, sustenta análises históricas e prepara a empresa para transições regulatórias. Uma companhia que já possui um relatório de sustentabilidade estruturado pela GRI tende a adaptar-se com menor custo às exigências da IFRS ou do ESRS, desde que já tenha desenvolvido uma governança de dados, controles internos e cultura de reporte. O custo de começar do zero em um padrão puramente financeiro pode ser muito maior do que evoluir a partir de uma base consolidada.
Focado em agilidade, a discussão muda de cenário. Em muitos casos, combinar as metodologias reduz ruídos internos e externos. Empresas listadas podem utilizar a GRI como estrutura ampla de impactos e complementar com IFRS S1 e S2 para atender ao mercado de capitais e organizações com operações na Europa podem alinhar sua materialidade à lógica do ESRS, mantendo a GRI como instrumento de comunicação global. Essa combinação, quando bem desenvolvida, evita a produção de múltiplos relatórios desconectados e reduz redundâncias na coleta de dados.
O ponto crítico é compreender que metodologia não é identidade, já que a escolha do padrão deve refletir o modelo de negócio, o perfil de stakeholders prioritários à comunicar e o grau de exposição regulatória. Quando essa decisão é feita de forma estratégica, a empresa reduz custos operacionais porque evita retrabalhos, elimina sobreposição de indicadores e fortalece sua narrativa de forma mais estruturada perante o mercado. A credibilidade aumenta porque o reporte passa a dialogar diretamente com as expectativas de quem lê, seja investidor, cliente, regulador ou comunidade.
O erro mais comum que observo em gestores de sustentabilidade é tratar o relatório de sustentabilidade como peça de marketing, concentrando esforços na estética e na narrativa aspiracional, enquanto a estrutura de dados fica fragilizada e não evolui com o tempo. Esse desalinhamento compromete a agenda no médio prazo, pois o mercado amadureceu e já diferencia um storytelling de uma gestão consistente. O reporte precisa ser consequência de um sistema interno robusto, com responsabilidades claras, indicadores monitorados ao longo do exercício e integração com planejamento estratégico.
Quando o relatório de sustentabilidade é tratado como uma ferramenta de gestão, ele orienta decisões, evidencia onde estão os riscos operacionais, quais temas pressionam a reputação e onde existem oportunidades de eficiência. Ele fortalece o diálogo com o financeiro ao traduzir impactos em riscos mensuráveis, sustenta conversas mais maduras com o conselho ao demonstrar evolução histórica e comparabilidade setorial, e, principalmente, ele cria disciplina organizacional, algo que nenhuma campanha de comunicação consegue substituir.
A GRI permanece relevante porque construiu essa disciplina com critérios que estiveram em melhoria contínua ao longo de décadas. As IFRS S1 e S2 agregam profundidade financeira, o ESRS eleva o nível regulatório europeu e o VSME oferece alternativa proporcional para menores e com isso, a questão principal na hora de decidir como reportar sustentabilidade não se relaciona a saber qual padrão é melhor de forma abstrata, mas qual combinação maximiza eficiência e credibilidade no seu contexto específico.
Se a sua dificuldade hoje é engajar áreas internas, talvez o problema não esteja na resistência das pessoas, mas na ausência de uma metodologia clara que organize responsabilidades e expectativas. A escolha correta do padrão e o uso de suas ferramentas como estratégia de gestão, pode ser o ponto de virada para transformar o reporte em um instrumento de gestão e melhoria contínua da sustentabilidade do negócio.
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